sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Pessoas são microcosmos e delas devemos aproveitar o máximo...

A vida profissional de uma pessoa é algo muito maior... A vida profissional de uma pessoa passa por um caminho traçado desde muito tempo. Esse tempo para mim e outros profissionais, é como uma fotografia, em que podemos compor com vivências: primeiramente estudantis e posteriormente profissionais.

Muitas vezes duvidei de mim enquanto estudante, mesmo durante as passeatas pelo impeachment do então Presidente da República e hoje Senador (quem diria) Fernando Collor de Melo. Estar ali com vários jovens e os grêmios estudantis sobreviventes de algumas escolas como o do Centro Educacional Setor Oeste e Leste, do Elefante Branco. Havia paquera ou azaração (atualizando vocabulário), mas só quando chegavam os rapazes do Colégio Militar de Brasília. Sei que nem de longe lembrávamos os jovens de 1968; no entanto, é bom dizer hoje: “- Eu estava lá!”. A convivência com meus professores, me fez acreditar que eu não estava errada, fez diferença a educação que tive sim!

Lembro-me que o olhar perdido que dávamos para ao Congresso Nacional (naqueles dias de passeata). Era o mesmo com o qual nos encarávamos na hora do intervalo, em meio a pichações da década de oitenta, naquele pátio do Centro Educacional 02 do Guará. E uma pergunta não saia de nossas mentes: O que vamos fazer da vida?

Vivenciar fatos históricos foi tão bom quanto assistir às aulas de física do prof. Martiniano, de história do prof. Tarcísio e de matemática do prof. James e sofrer para aprender análise sintática com o prof. Agustine. Enquanto passei por lá o muro de Berlim caiu, a cortina de ferro soviética fragmentou-se, o Rock in Rio II foi realizado (e eu não fui), todo mundo queria ler Paulo Coelho e assistir a Legião Urbana em Brasília. Estourou a guerra na Bósnia e elegemos o primeiro Presidente da República pós-golpe (não pude votar, pois tinha 14 anos), o Bush (pai) fez a guerra do Golfo e o Guará foi mudando gradualmente. Prédios comerciais foram construídos, a população foi aumentando, bem como o poder aquisitivo e a qualidade de vida, mas essas mudanças também tornaram o Guará um lugar menos pacato e mais problemático.

Aprendi os hinos estudantis que pertenceram às gerações anteriores a minha, e todos os “faroestes caboclos” do Cerrado: Legião Urbana, Capital Inicial, Paralamas “do Sucesso”; de fora veio o Nirvana, Metálica, Pearl Jam e toda a geração grunge. Tudo se somou a minha rebeldia juvenil de botas pretas e cabelos enormes. Só queria saber de freqüentar a UnB com minha irmã caloura de Agronomia e escrever uma novela juvenil chamada “A Patrulha” (que guardo a sete chaves). Lembro-me da dedicação de seu Anésio que ficava no portão e nos acolhia todos os dias, das merendeiras que me serviram lanches deliciosos, do professor Carlos Alberto e os fundamentos do Basquete, do professor Dionísio e sua ginga sensual para nos ensinar Capoeira, do professor Luís (in memorian) e tantos balanceamentos químicos que sofri para aprender.

O tempo passou e deixei o GG, com as incertezas de uma pré-adulta e a coragem desbravadora que só os adolescentes têm. Saltando um grande espaço entre as vivências e descobertas feitas de 1992 a 2002, retornei em 2003 ao Centro Educacional 02, em uma situação totalmente diferente, como professora de Língua Portuguesa. E nessa nova etapa encontrei novidades e ao mesmo tempo repetições. (Que diabo estava eu fazendo no GG de novo!).

O primeiro passo (claro!) foi ir a secretaria bisbilhotar minha ficha de ex-aluna, me deparei com aquelas notas sofríveis e uma foto aos 14 anos (que tive vontade de fazer desaparecer), vasculhar todos os cantos da escola que gostaria de ir e não fui, sei lá porquê? Talvez para ver se achava algo que ficou perdido em minha memória estudantil neste velho conhecido universo.

Reencontrei antigos professores que agora eram meus colegas de trabalho: Tarcísio, Martiniano, Luís (in memorian) e Dionísio e novos colegas (não citarei nomes para não ser injusta com ninguém) que me aproximei e de mim se aproximaram. Encontrei alunos e alunas barulhentos, desanimados, distraídos, inteligentes, interessantes, apaixonados, capazes, sarcásticos, distantes e amigos. A maioria bastante exigente em outro sentido, talvez por conviver mais com seus professores do que com os próprios pais. No entanto, sei que boa parte deles ainda se encanta com os ídolos e músicas que conheci também na adolescência e nos caminhos que tracei durante a faculdade. E a ânsia deles em receber formação, às vezes, esbarra num mundo completamente novo de muita informação e tecnologia que os interroga o tempo todo com uma antiga pergunta: aonde vocês irão?

O consumismo exagerado e a cultura descartável roubam-lhes tempos preciosos de dedicação aos seus estudos e da descoberta de seus verdadeiros dons, porém a tecnologia, no entanto, proporciona-lhes vivências e confortos que nós nem sonhávamos em ter com suas idades;

Hoje o GG é mais arborizado e não tem mais uma piscina vazia, onde “A Patrulha” se reunia (risos). Graça a ex-professores audaciosos e a direção da escola, tem uma piscina recuperada funcionando para a comunidade e alunos. E é nesse momento que volto àquela fotografia “profissional”, talvez um tanto romântica, mas sem dúvida real, para questionar o valor da escola na vida de alguém. Como recuperar a sensibilidade que faz profissionais e não números?

É em busca dessa e de tantas outras respostas que continuei meu trabalho. Recordo-me de meus estudos iniciais quando tive o primeiro contato com a palavra ao ouvir dos lábios de meus pais suas histórias e dos primeiros professores as histórias infantis. Tiveram também os jogos em equipes, partidas de xadrez e os experimentos científicos domésticas que nos mandavam fazer. Sei que em algum lugar todas estas vivências fizeram com que eu e de muitos colegas desejassem realizar tarefas mais complexas, como educar, por exemplo.

Tudo está aqui uma enorme colcha de retalhos que só se faz com outro pedacinho. Com inúmeros profissionais, inclusive “anônimos”, sustentam o caminho profissional de todos nós. Ninguém é insubstituível, como dirá uma caríssima colega de trabalho e ficcionista Heide Freitas, porém ninguém faz o que só a própria pessoa pode fazer.

Desde meados de 2007, trabalho no Centro Educacional 01 da Candangolândia. Uma comunidade nova pra mim. Novos profissionais e o desafio de celebrar o cotidiano. Aqui encontrei receptividade, mais oportunidade de aprendizagem e muito, muito trabalho. E aprender nem sempre é fácil... Reconhecer os erros e aplaudir talentos também não foi. Estar em uma escola nova é como começar outra ciranda em que nem sempre todos querem se dar a mão, mas que certamente precisarão de você para que ela gire.

Há uma semana uma caixinha de giz fechada foi retirada do armário. Nela estava grafado em próprio punho, o nome do professor de Educação Física Agenor (in memorian). O conhecimento que por ele foi transmitido aos seus alunos não se resume ao pó e a alguns pedaços de giz que lá dentro ficaram. Os diálogos, vozes, risadas e apitos continuam ecoando na quadra e nos corredores. Também passaram por ele a criança curiosa, o estudante dedicado de Educação Física, o professor atento e observador, o pai e a capacidade de levar das pessoas o melhor que elas tivessem para lhe oferecer. Um colega sem grupos e rótulos, ele é um hoje um símbolo para todos os professores, servidores e alunos do Centro Educacional 01 e da Candangolândia.

Qualquer resposta que se dê a uma fatalidade será tão enigmática quanto a pergunta feita para decifrá-la. Pessoas são microcosmos e delas devemos aproveitar sempre o máximo. A vida de um profissional não se resume a um número, mesmo que estes facilitem a vida burocrática dentro das instituições educacionais de nosso país e ajudem a compor estatísticas. Nada substitui a vivência com um universo. Somos talhados por várias histórias e enigmas que só descobriremos se tivermos a coragem de ir além, muito além das aparências. Se tivermos a coragem de reinventar o cotidiano do estudante que mora no nosso interior com aquele outro que nos acena do lado de fora.

2 comentários:

Rubens Carneiro disse...

Olá, realmente você viveu a história, eu queria ter nascido antes tipo nessa mesma época que você para ver e viver Legião e participar de uma parte da história do Brasil ajudando nos protestos com os caras pintadas, sua juventude foi muito bem aproveitada. Tive aulas com o Agenor foi uma grande professor! Eu nunca tive a oportunidade de te conhecer, estudei vários anos no CE01 da candanga só que terminei em 2007, ganhou mais 1 leitor assíduo no blog, valeu.

Camyla disse...

É, sua juventude foi muito bem aproveitada! É uma pena que boa parte dos jovens hoje em dia não tem as mesmas cabeças de antigamente e simplesmente 'acatam' certas decisões sem ter a coragem de lutar pelos seus direitos.

Agenor deixou saudades! =(