domingo, 31 de agosto de 2008
















No último sábado dia 30 de agosto tive a oportunidade de conhecer e conversar (ainda que brevemente) com o poeta amazonense Thiago de Mello, durante a Feira do Livro de Brasília. Um momento que sonhei desde o dia que vivi um episódio inusitado, mesmo sem conhecer 'Estatutos do homem", até então. Eu era uma espécie de aspirante das letras, de andar errante e que começava a reconhecer-se e estranhar-se com a poesia.


Polliana (uma também poeta), eu e o próprio Thiago de Mello
Foto: Julliany Mucury


Foi assim:

Era apenas uma ida de ônibus ao centro da cidade.
Quanta casualidade! Eu sentada e enquanto ia ao meu destino mergulhava em palavras. Era um livro de Cora Coralina: "Poemas dos becos de Goías e histórias mais". Nunca fui de notar quem sentava ao meu lado (apenas que fosse uma paquera) e naquele dia um Nobre Senhor
( só agora refiro-me a ele assim), muito elegante, de cabelos meio grisalhos e bengalinha marrom ao meu lado se sentou:
Eu acostumada a passar impune até então, não escapei de uma indagação:
-Livro bom este que você leva nas mãos...
Olhei levemente para o lado e ele continuou a indagar. Falou das árvores que por nós passavam como que correndo. Indagou os carros e a estabilidade dos prédios. Indagou os poetas em seu livros. E de quando em quando fazia observações enusitadas que me roubaram do livro da Cora:
- Olhe as pessoas ao lado, olhe aquele ônibus que parou ali a frente. Quantas pessoas, tantos caminhos. Para onde vão? De onde eles vem?
Eu nada conseguia dizer. Só conseguia ouvir e perceber diversas imagens para mim tão obtusas até então. Sua fala parecia ter me imobilizado mesmo que não quisesse adimitir.
(- Sim.. Esses rostos já os conheço Nobre Senhor, os vejo todos os dias, mas nunca percebi isso!!) E antes que tentasse abrir os lábios para lhe falar isso, me perguntou enfaticamente:
-Qual é o nome do poeta amazonense?Você o conhece?
(Eu deveria saber, na verdade eu sei... São tantos nomes... É claro que sei ele é da mesma terra da mamãe, ele conheceu Neruda. Meu Deus?? Como se chama mesmo?? )Não gostava muito de não responder aquilo que me perguntassem, principlamente quando sabia que conhecia algo desse poeta amazonense.
- É...espere um pouco...Vou lembrar. ( Foi só o que consegui dizer gaguejando)
De onde saiu este senhor... será algum acadêmico?E ele continuou:
- Veja as árvores do parque. Maravilhosas, não?Já parou pra ver a singelesa de uma árvore minha filha? Várias espécies, troncos, frutos, flores e folhas caem em todas as estações. E quando chove...Um verdadeiro milagre, a terra nos espera com seu cheiro e...
(Lembro-me bem que brincava no parque quando era criança, mas faz tanto tempo que não sei mais o que dizer sobre a singualridade de uma árvore.)

O ônibus parou em uma parada qualquer e ouço um galaneio a beleza do sorriso de todas as mulheres.

Fiquei vermelha. Percebi que tinha tanta coisa que não sabia ainda da vida querida Cora, me ajude vai, me diga quem é este José? Tantos Josés, tantas Marias e Joãos e ele afirma categoricamente:
- O nome do forúm é Desembargador João Sebastião Barbosa. Você o conhece ? Eu também não...
- Sabe o que é... Tenho que passar na biblioteca pegar alguns livros e entregar esses currículos hoje ainda e estou correndo, na verdade não aguento mais andar de ônibus, essa é a verdade!
Desabafei categórica, querendo estragar a ambição poética do homem, mas ele nem deu ouvidos. Continuava a despertar meu imaginário, cheguei por instantes achar que estava em um conto fantástico daquele argentino... Nossa, me falhou mais um nome! Hoje estou péssima pra nomes!
O sinal fechou e enquanto algumas pessoas atravessaram a rua, larguei as resistências e resolvi concordar que aquele homem tinha mesmo razão. Como nós Brasileiros éramos bonitos... Não só isso o Brasil como um todo é também. Ele me rouba de minha reflexão:

- Percebeu moça, quanta poesia já fizemos. Sua Cora Coralina iria gostar de saber que você está fazendo muitas descobertas.

Esse cara é completamente pirado, só pode ser!!! De uma hora para outra comecei achar que o figura era algum tipo de vidente, algo assim.

E disfarcei este pensamento olhando em direção ao vidro do motorista, tinha perdido completamente o rumo a noção que minha parada já se aproximava e ele percebendo meu movimento perguntou-me:

- Chegou sua parada de ônibus?

Nessa hora tive uam sensação estranha. Uma espécie de calafrio, uma alegria, uma vontade de riso em meio minha ansiedade de quem ainda tem de se firmar na vida e quer desvendar a palavra amor. Será alguém tem algo tão bom, mas tão bom guardado pra mim e mandou um recado por este homem de 60 anos. Seria ele uma espécie de porta-voz? Quase chorei, enquanto pedia passagem a ele para me encaminhar para porta de saída. E ele me pergunta mais uma vez categórico:
- Qual é o nome do poeta amazonense, mesmo?
- Está na ponta língua, não lembro...Chegou minha parada, desculpe tenho de descer! Falei desconcertada enquanto ele olhava-me no fundo dos olhos e dizia:

- Faz escuro mas eu canto...

Me encaminhei para a porta e enquanto esperava o motorista terminar de freiar o veículo e se preparar para abrir a porta. Tentava encaixar aquela frase a alguma referência. O que ele quis dizer? Eu conheço esta frase ou então este cara fugiu do hospício. Não é possível... Ou serei eu que estou ficando doida. Olhava-o de beira de olho, tentando raciocinar todo o acontecido e o vi com um olhar perdido para o vidro da janela segurando sua bengalinha marrom na mão esquerda, provavelmente viajando em imagens de seu tempo. Confesso que me deu vontade de voltar lá e dizer-lhe tanta coisa. Falar da minha vida e minhas inseguranças, daquele rapaz que tá me tirando do sério, que faço poesia e a faculdade tá cara, porém antes que movesse a perna pra voltar, a porta abriu-se e fui praticamente impelida a sair..

Ao pisar na calçada e me encaminhar para o semáforo parei um momento para ver o ônibus ir embora e ao mirar o horizonte parei meu olha no céu e vi uma breve nuvem de chuva naquela Brasília de dezembro em plena W3 sul.

Uma frase, no entanto, repetia dentro de mim "faz escuro mas eu canto, faz escuro mas eu canto, faz escuro mas eu canto, faz escuro mas eu canto" Lembrei!!! E sem saber que dali a alguns anos seria uma declamadora de versos e teria a alegria descobrir muitas árvores e pássaros do cerrado na Chapada dos Veadeiros, gritei com uma baita alegria, dali mesmo, como se ele pudesse me ouvir:

- Thiago de Mello!!!!!!!

Contando esta história a uma amiga anos depois, ela me disse:

- Deliane ele te ouviu...

2 comentários:

Carlos disse...

Meu amor adorei.
Tirou minhas palavras.
mais é muito bom te amar completamente e ser respondido.
Eu

Digumes disse...

Caraca, véi!!!! Peraí, não é assim que se escreve no blog de euma escritora!!!
Minha Nossa Senhora!!!!
Que legal!!!!
É verdade?????
Agora entendi sua emoção ao me contar que o tinha encontrado na feira do livro. Mas e aí? Ele lembrou??
Pô... eu sei que a expressão é hippie, mas também sou antiga, né, posso usá-la, hahahah
Parabéns é uma linda crônica , de leitura rápida e que prende até o final com aquelas pequenas pistas e dá prá sentir sua agonia de descer e de tentar lembrar e também sua (acho que frustração) ao lembrar o nome dele!!!!
Adorei, vc vai para a academia!!!!
Mil beijos