terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sereníssima



Uma dança e dois corpos soltos bailando continuamente. Se se conhecem há milênios, eternizados pelos passos de uma dança? Só eles sabem. Os conheci há bastante tempo e não esqueci mais o enlace mágico daqueles dois corpos no silêncio. Quando eu caminhava pelas ruas todas as manhãs, sempre os via dançando, percorrendo sozinhos os corpos um do outro, num pulsar tão acelerado e infantil, que até pareciam duas crianças intertidas com seus próprios brinquedos. Imaginava um diálogo perfeito ou uma briga qualquer que os afastasse. Imaginava que descobriram-se amigos depois de muito tempo e isso machucara um deles profundamente, como dentro da música The closer I get you. Sei, no entanto, que o que quer que imaginasse não seria suficiente para quebrar a harmonia de serem completos dentro dos seus passos, com ou sem sapatilhas.

Mas também poderiam ser dois perfeitos desconhecidos, que moravam em cidades diferentes talvez? Dividiam alguns passos por horas sobre um palco qualquer para entreter suas platéias. Não haveria paixão ou desejo em seus olhares. Deixei de acreditar que poderiam existir como antes, pois tudo deveria ser apenas um mero espetáculo. Ainda sim corri para o teatro. Seria a última apresentação antes da turnê que fariam pelo mundo afora. Juntos e separados. Ele estava seguro como sempre e ela com alguma sombra de fragilidade espantada pela leveza. Nunca tinha visto um teatro tão cheio. Muito movimento, pessoas de várias cidades só para aquela apresentação. Era algo realmente decisivo na carreira de ambos. Sentei-me longe, bem no meio da força daquela multidão.

Tantos refletores ligados, nunca iriam perceber nada, o espetáculo iria começar. De longe via de minha cadeira, ao lado do camarim uma confusão, um entra e sai e outros artistas, músicos e diretores de cena. Quando os vi momentos antes de entrarem, percebi que estava errada! Ele demonstrava uma tristeza e ela uma certeza.

Preparavam-se para uma dança Flamenca, lembrei-me das touradas em Madri que nunca assisti. Quem sabe um dia? Seus olhares contemplavam-se e fingiam estar sozinhos, mas não na Espanha, bem mais perto. Olhei distraída para o lado, uma risada de criança me assustara subitamente. Todos ali miravam o palco, menos aquela criança. Subitamente ouve-se uma voz...

- O que farei se ela tiver mesmo que ir embora, se não puder mais conviver com sua luz? Como farei? Terei que suplicar para que fique? Para que ouça a verdade?

Ela, ignorando tais vozes, vem falar-lhe ao ouvido que já dançavam juntos há muito tempo, que era hora de buscarem separados novos parceiros de dança, aprimorar passos e movimentos. Que achava que o tempo deles juntos havia acabado.

-Você está enganada!!! Nosso lugar é aqui...

- Do que você fala?

- Você não é tão insensível e egoísta assim...

- Posso ser...

- Me diga por quê?

- Não há porquê para tudo.

- Se lhe contasse que cheguei mais cedo para a apresentação, e entrando pelo portão da platéia por distração, vi de longe uma moça que me chamou muita atenção bem no meio dessa multidão. Seu olhar parecia perder-se, fragmentar-se a olhar o palco e espreitar atentamente as luzes vindas das coxias. Tinha jeito de bailarina, mas não sei porque se sentaria tão longe, já que existe um lugar reservado para os bailarinos visitantes na primeira fila. Conclui que queria mesmo ficar distante. Imaginei por segundos que quando ela viu um par de sapatilhas pela primeira vez, encontrou na dança algo maior que si mesma e apaixonou-se. Quis profundamente pertencer a tudo aquilo. Ao ver a primeira companhia de dança quis ir embora, também. Mas era só uma desconhecida. Quando percebi, tinha acenado duas vezes, em vão, pois ela não havia me visto. Não esqueci seu rosto. Parecia-me conhecido. Droga! Sei que está em algum lugar nos vendo, quis oferecer essa dança a ela, mas como? Nem sei seu nome e nem se a verei novamente.

Naquele momento, meu lugar ficou vazio, o riso da criança ao meu lado ficou como a memória mais forte que tive daquele momento. Já fui criança um dia também, e existi com as coisas estando lá ou não, porque agora então não existiriam? Resolvi descer do meu lugar para o palco.

- O que você diria a essa moça se pudesse vê-la agora?

- Que a razão de sua vida é esse palco, que não importará para onde ela vá ou em que palco irá habitar. Eu continuarei neste esperando...

- Como sabe que ela vai embora, se nunca falou com ela antes ou onde irá dançar?

- Ela acabou de descer da platéia...

Ao fechar das cortinas, antes do término de outro espetáculo, alguém comentou ter visto um casal de bailarinos famoso saindo de mãos dadas de uma tourada em Madri.

2 comentários:

Deliane Leite disse...

O conto sem dúvida é um flesh sobre a realidade. Foi estudando a Teoria do Conto de Júlio Cortazar em uma disciplina na Universidade que surgiu esse conto. Adoro as imagens provocadas por ele... Espero que gostem!!!

ALUISIO CAVALCANTE JR disse...

Querida amiga.

Li este conto ao som de Sereníssima,
música de Loreena McKennitt.

Uma linda música e um lindo texto.

Que a inspiração te acompanhe sempre.