terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Gaveta de Guardados III - Um delicioso relato de Leminsky sobre a descoberta do amor...

A outra metade do céu

Paulo Leminski

A vida não me deu irmãs. Me criei apenas com um irmão mais moço. Meu pai era militar e minha mãe, filha de militar, uma mulher carinhosa e dedicada, mas muito contida de gestos e expressões.


Assim, cresci num ambiente onde a presença da mulher era muito discreta. Nossa casa tinha aparência sombria e austera, uma casa masculina com certeza. Sempre invejei meus amigos que tinham irmãs, aquelas pessoas tão diferentes que passam horas diante do espelho, mordem os lábios para eles ficarem vermelhos como maças maduras, da cor daquela maça que Eva deu a Adão, dando começo a esta deliciosa história.


Me lembro que ficava imaginando : como será conversar com uma irmã? O que será que elas pensam da vida?


Com toda a minha ignorância, não é difícil vocês fazerem uma idéia de como foi complicado o começo da minha vida sentimental.


Simplesmente eu não sabia como conversar com pessoas do sexo oposto. Estampa até que eu tinha ...Mas, ao lado ou diante de uma garota, eu era uma lástima. Era como se pertencêssemos a duas espécies diferentes do mundo animal. Tente imaginar uma conversa entre uma borboleta e um colibri. Era algo assim.


Depois de trocar banalidades de praxe, filmes, discos, ídolos, minha cabeça dava um nó. Silêncio total. E agora? A garota ali, esperando que eu fosse engraçado, fascinante, emocionante como um parque de diversões. Pensando nisso, hoje, me ocorre que talvez a garota ao meu lado também estivesse tendo problemas. Pode ser até que tivesse crescido sem irmãos e achasse um rapaz o mais esquisito dos seres. Na época, isso nem me passava pela cabeça, eu fervilhava de emoções.


Mas, na hora em que elas iam sair, alguma coisa acontecia na passagem das emoções para as palavras, e era aquele curto-circuito, aquele coração batendo que nem um louco, e eu dizendo coisas profundíssimas do tipo: “Aceita um chiclete?”


Só que eu nunca desisti. Por mais estranhas que me parecessem, alguma coisa em mim dizia que eu tinha nascido para viver com aqueles seres feitos de maravilha e mistério, que a felicidade para mim era uma palavra feminina. Tinha certeza de que, um belo dia, a maldição de não poder me comunicar com o sexo oposto ia acabar.


Foi quando comecei a escrever poesia. Eu enchia cadernos e mais cadernos de versos, frases, esboços de contos, onde invariavelmente, um rapaz tímido tentava se comunicava com uma garota, ela também o amava, mas alguma coisa não deixava que os dois se integrassem.


Mostrava esses poemas a algumas irmãs de amigos meus. E eu tinha vontade de morre quando, ao ler meu poema, a garota dizia apenas: “Lindo! Ah, se alguém fizesse um poema desses inspirado em mim...” Me dava aquele branco e eu não dizia a frase fundamental: “Foi inspirado em você”.


Eu não sabia , mas com todas aqueles dolorosos fracassos eu estava chegando mais perto do mistério da mulher, estava começando a decifrar esse misterioso idioma.


Um dia conheci uma poetisa, que veio me visitar na festa de um aniversário meu. Chamava-se Alice e tinha sido trazida por algumas amigas. Trocamos duas frases, e foi o que bastou. Até hoje, não sei explicar direito o que aconteceu. Só sei que atravessamos a madrugada conversando sem parar, confidências pra cá e pra lá, sonhos, broncas, projetos. Em nossa volta, a festa foi desaparecendo, as pessoas virando fantasmas, e no meio da multidão ficamos só nós dois, falando a mesma linguagem, com se tivéssemos nascido os dois naquele dia. Juntos.


De lá para cá, o mundo feminino, a inteligência e a sensibilidade da mulher começaram, devagarinho, a fazer sentido. Enfim eu começava a enxergar, deslumbrado, a outra metade do céu.

......

(a continuação desse texto está por aí, na vida de um homem verdadeiramente sensível.)




2 comentários:

Alberto Hugo Rojas disse...

GRACIAS POR TU VISITA EN MI CASA... POR AQUI ME APUNTO COMO SEGUIDOR..
FELIZ DIA DESDE CANARIAS ESPAÑA

Thomas Albuquerque disse...

Deliane...
Muito obrigado pela visita em meu "Apreciando Sensações"..Teu espaço é muito poético.
Lindo esse texto também...Tenho o sonho de um dia versar com uma poetisa também..rs

beijos