quinta-feira, 14 de julho de 2011

Vende-se um vestido por Elizeu C.F...




VENDE-SE UM VESTIDO

Vende-se um vestido preto,
Bordado com lágrimas de vinho,
Costurado com traços de prazer
Rendado com ósculo ao luar.
Tens o odor da noite,
Afago e açoite.
Seu tecido acariciado,
Nos botões, rebento de gato.
Em retratos foi pintado,
Já fez inquietos enamorados.
Sua historia és da boemia,
Os decotes de fantasias.
Um vestido vivo,
Andou dentre os mortos,
Freqüentou os botecos da Rua Augusta,
Os laços acorrentam as lutas.
É de genuína seda...
Como seda a película que já o gastou.
É de picante sensualidade...
Pois libertina foi sua casualidade.
Traz na etiqueta o verbo inspiração,
Abandonou bardos pacientes do coração.
É um vestido alongado...
Tão comprida és sua reputação.
Adormeceu em cabeceiras de hotéis,
Amassado em cima de tonéis.
Um vestido que consecutivamente se vestia,
Com o vulto mais soberbo de Virgem Maria.
Atualmente está no armário,
Confinado com livros de Kerouac e Neruda.
Adormecendo em densa alquimia...
Do lisérgico amor.